Recentemente, conversando com um pai, ele contou sobre a dificuldade em levar sua filha, de nove anos, para passear e brincar no parque: “Ela só quer ficar em casa, trancada no quarto, mexendo no celular.”
Tal declaração causou-me espanto e preocupação. Não que o fato fosse inédito para mim, mas conheço a criança há três anos e sempre a vi muito alegre e ativa.
Diante desse pedido de ajuda do pai, passei a observar, em meu ambiente de trabalho, o espaço onde os alunos aguardam o início das aulas. O local dispõe de cadeiras, puffs e uma estante com livros. Em diversas ocasiões, notei que três ou quatro alunos da mesma escola permaneciam juntos no mesmo ambiente; contudo, não interagiam entre si. Cada um estava imerso em seu próprio “mundinho”: um no celular, outro dormindo no puff – e nenhum demonstrava interesse pelos livros. Que tristeza!
Surge então uma reflexão inevitável: o que está acontecendo com as crianças? Por que não desejam mais brincar umas com as outras? Por que preferem as amizades virtuais?
Observações realizadas em outros espaços reforçam esse cenário. Nas áreas de lazer de muitos condomínios, quase não se vê crianças brincando. Frequentemente, estão com o celular nas mãos, jogando, enquanto os brinquedos permanecem vazios. Nos parques, observa-se mais adultos fazendo exercícios do que crianças correndo e interagindo.
O ser humano não foi criado para viver isolado; a convivência é essencial para o pleno desenvolvimento. “Oh, como é bom, como é agradável para irmãos unidos viverem juntos”. Sl132,1
Constata-se, ainda, que os pais não estão alheios a esses problemas. Muito cobram dos filhos uma postura diferente, mas não sabem como auxiliá-los. Alguns reconhecem a origem da dificuldade, porém não conseguem romper o ciclo vicioso. Reverter essa situação exige uma mudança profunda na postura dos pais, uma vez que a solidão das crianças decorre, em grande parte, de um estilo de vida pautado pela valorização do consumo, do prazer e sucesso profissional – deixando-se de lado o cuidado com a alma.
A dinâmica familiar, em muitos lares, tem se centrado no fazer. Os pais trabalham o dia todo; as crianças frequentam a escola, aulas de idiomas, reforço e atividades físicas – tudo voltado para a construção de um futuro promissor. Ao final do dia, todos retornam para casa exaustos, desejando apenas descansar.
Mas onde ficam o convívio familiar, os momentos de diálogo, de oração e de leitura? Quase sempre, são adiados para “quando houver tempo”.
As crianças estão pedindo socorro, e essa ajuda deve partir, antes de tudo, da família. É urgente que as escolas católicas e as igrejas assumam o compromisso de apoiar essas famílias, oferendo formação, acompanhamento e, sobretudo, pastoreio, de modo a fortalecê-las em sua missão de educar e amar.
É tempo de resgatar essas crianças, unindo pais, educadores e a igreja na construção de um ambiente que eleve o olhar da criança e promova seu crescimento na fé, na sabedoria e no amor.
A verdadeira educação não consiste apenas na instrução intelectual, mas na formação integral do jovem, preparando-o para ser não apenas um bom cidadão, mas um bom cristão. É por meio do bom exemplo, do carinho, da disciplina e da presença constante que conseguimos tocar o coração dos jovens, para que se voltem para Deus, vivam a moral cristã e se tornem membros úteis à sociedade, conforme nos ensina São João Bosco em seu Sistema Preventivo.
“A prática desse sistema é toda apoiada sobre as palavras de São Paulo, que diz: A caridade é paciente, é benigna, tudo sofre, tudo espera e suporta qualquer incômodo”. São João Bosco


Respostas de 2
Quantas reflexões relevantes! Infelizmente o “quando houver tempo” ainda prevalece em muitos ambientes familiares e escolares.
O tempo da infância, crucial para formação do ser humano se encerra num piscar de olhos.
Que possamos estar atentos ao que realmente importa.