Um olhar espiritual sobre a ansiedade moderna e o reencontro com o essencial.
Quantas vezes, na última semana, você se viu preocupado com o futuro? E quantas outras se percebeu vivendo no automático, cumprindo listas e mais listas de afazeres, sem sequer tomar consciência do que fazia? Essas perguntas não são incomuns entre os que buscam viver a fé em meio às exigências do cotidiano. E, talvez sem perceber, muitos de nós revivem, dia após dia, a experiência de Marta: inquieta, ansiosa, absorvida pelas urgências — e distraída da única coisa necessária – o Senhor.
No Evangelho de São Lucas, lemos o episódio em que Jesus visita a casa de Marta e Maria. Marta se deixa consumir pelas tarefas, pelas preocupações e pelo desejo de que tudo esteja perfeitamente em ordem. Na ordem dela. Ao notar sua agitação, o Senhor lhe dirige palavras de ternura e sabedoria: “Marta, Marta, andas inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só é necessária.” (Lc 10,41-42)
Este trecho bíblico atravessa séculos e permanece ecoando com ainda mais força em nossos dias. Vivemos numa época marcada por um ritmo acelerado, por exigências externas e internas cada vez maiores, por uma cultura que valoriza a produtividade acima da presença. A ansiedade, mais do que um sintoma individual, tornou-se um traço de época. Para muitos, ela se converteu em estilo de vida.
É importante reconhecer que Jesus não repreende Marta por servir. O serviço, em si, não é um problema — ao contrário, é virtude. O que Ele corrige é a desordem das prioridades. O coração de Marta estava dividido. O problema não são as tarefas, mas permitir que elas nos afastem da essência. O Evangelho não nos convida a abandonar os afazeres, mas a realizá-los em outra ordem interior: colocando Deus no centro de tudo. Não se trata de “dar conta de tudo”, mas de dar conta do que realmente importa.
É nesse ponto que a espiritualidade cristã nos oferece uma chave preciosa: a santificação da vida ordinária. São Josemaria Escrivá, um dos grandes promotores dessa verdade esquecida por muitos, diz em sua obra – Caminho: “Queres de verdade ser santo? – Cumpre o dever de cada momento; faz o que deves e está no que fazes.” Ele nos recorda que a santidade não está reservada a mosteiros, mas se encontra no meio da rotina comum, nas tarefas mais simples, no cotidiano vivido com presença de espírito e de Deus. Da mesma forma, Santa Teresa d’Ávila nos recorda com sabedoria: “Entre as panelas também anda o Senhor.” Ou seja, Deus não está apenas no templo ou nos momentos de oração formal, mas também na cozinha, na lavanderia, no escritório, no trabalho silencioso e escondido. O que importa é que estejamos com Ele, em Sua presença. A inquietação que aflige tantas almas hoje nasce, muitas vezes, da ausência de Deus naquilo que se faz. As tarefas tornam-se pesos quando feitas desconectadas da finalidade maior. Quando a oração não permeia o serviço, ele se torna agitação. Mas quando o Senhor é trazido para o centro, o serviço se converte em oração. Estar em presença significa abrir espaço interior para que Deus habite cada momento do dia. Significa respirar com mais consciência, fazer pausas para elevar o coração, unir o fazer ao ser, e o agir ao contemplar. É possível dobrar roupas e, ao mesmo tempo, agradecer a Deus por aqueles que as vestem. É possível preparar uma refeição e oferecê-la em silêncio como um gesto de amor.
É possível transformar o cotidiano em altar.
A resposta de Marta, mais tarde, revela sua conversão interior: “Sim, Senhor, eu creio!” (Jo 11,27). Já não há ali apenas serviço; há fé. Já não há só agitação; há confiança. A presença de Cristo mudou a lógica de seu agir. Que o exemplo de Santa Marta nos ensine a não fugir das tarefas do cotidiano, mas a realizar cada uma delas em ordem e presença. Que saibamos discernir, em meio às urgências do mundo moderno, aquilo que é verdadeiramente necessário. E que, ao reconhecermos a presença do Senhor entre as panelas, nos compromissos familiares, nos silêncios da casa ou nas obrigações profissionais, sejamos capazes de transformar a inquietação em paz, e o serviço em oração.
Que pela intercessão de Santa Marta possamos viver o extraordinário no ordinário, e fazer do nosso dia comum um caminho seguro de santidade.


Respostas de 6
Reflexão belíssima! Ter hierarquia de valores, colocar ordem e saber dar a primazia a Deus.
“Ele corrige a desordem das prioridades.”
Quanta sabedoria nas palavras, que tocam como flecha no alvo. “desejo que esteja perfeitamente em ordem. Na ordem dela.”
A santidade se encontra “no cotidiano vivido com presença de espírito e de Deus.”
E tantas outras….
Artigo com uma reflexão tão necessária para nossos dias! Como mães, dona de casa, esposa… não podemos deixar de viver o evangelho mesmo em meio ao labor e contrariedades diários. Viver em Deus no cotidiano!
Sensacional a reflexão, Deus a abençoe Juliana
Palavras necessárias para nós mulheres que estamos em nossas finitas funções, dando o nosso melhor diariamente. Tudo está em Deus.
Que reflexão profunda e necessária! O artigo traz um olhar espiritual muito inspirador sobre a ansiedade moderna, mostrando com clareza e ternura como reencontrar o essencial em meio ao cotidiano. Uma verdadeira bênção para quem lê!