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O fiasco da Revolução Sexual, uma das filhas prediletas da Revolução

A década de 1960 foi marcada pelo início da comercialização da recém desenvolvida pílula anticoncepcional e pelo auge dos movimentos revolucionários estudantil, feminista, “gayzista” e “hippie” que tinham em comum o intuito de lutar contra os “tabus sexuais” da época em busca de liberdade e igualdade de direitos para as mulheres, transformações que conhecemos hoje como “Revolução Sexual”. Após mais de seis décadas deste marco podemos olhar para trás e analisar os efeitos sociais e individuais desta revolução e avaliar se houve a concretização dos ideais de prazer e liberdade almejados.

A pílula anticoncepcional foi como a faísca no barril de pólvora das transformações sociais do século XX. Ao falar em “revolução sexual”, é necessário esclarecer que esse termo é empregado como algo positivo passando a ideia de que a proposta de comportamento que tais grupos propunham, de suposta liberdade, seria melhor do que a embasada na cultura judaico-cristã e na moral católica, ou seja, nas Sagrada Escrituras, no Magistério da Igreja Católica e na Revelação Divina. Sendo esta cultura tida como conservadora e retrógrada, a revolução levantou a bandeira do progressismo sob forte influência do Marxismo e da teoria Freudiana. Com um nobre lema de luta pela liberdade contra supostas ideologias opressoras, praticamente toda uma geração tentou pôr abaixo uma cultura milenar, com a ingênua sensação de autenticidade, como se não estivessem eles próprios sendo influenciados e movidos pela Ideologia Progressista.

Contemporâneo, mas em contraposição à esta ideologia progressista, a antropologia de Viktor Emil Frankl, Logoterapia e Análise Existencial, explica que a vivência do amor é fundamental para o ser humano, pois é isto que o identifica e o caracteriza, propriamente, como humano. É através do amor que o homem se realiza, por esta ser uma via que possibilita encontrar sentido e valor em sua vida. Ao esquivar-se desse potencial de amar, o indivíduo se direciona ao estado de vazio existencial com risco de adoecimento na dimensão espiritual e o desenvolvimento de comportamentos destrutivos e viciosos.

O amor enquanto característica constitutiva essencialmente humana tem na sexualidade sua expressão, como uma via de elucidar o sentido da vida. À medida que o indivíduo amadurece ele se direciona para o amor. A sexualidade reflete a estratificação do homem em camadas que são os organismos físico, psíquico e espiritual, diante das quais Frankl apresenta três formas de atitude.

A mais primitiva é a atitude sexual, é como a infância da maturidade sexual. É o estágio em que a aparência física de uma pessoa, desencadeia em outra pessoa um impulso e afeta a sua corporalidade. Em seguida, com um certo amadurecimento, o ser humano já não se fixa mais, apenas, na dimensão física. As qualidades físicas atraem, mas já aparece, também, uma comoção na emocionalidade por determinados traços do caráter do outro. Orienta-se ao psíquico, ainda que não chegue ao cerne da pessoa. Corresponde à paixão dos namorados. Mas neste estágio o outro ainda é como um objeto pois é utilizado como meio para a satisfação dos próprios desejos. Até estas dimensões física e psíquica a relação se dá a nível animalesco, pois o interesse da pessoa está em si, no bem próprio, o prazer, e não no bem do parceiro.

A terceira forma de atitude é o amor. Neste estágio o interesse da pessoa não se restringe mais ao corpo físico do outro ou em determinados traços de sua personalidade, mas em sua essência. Um indivíduo se encontra tocado em seu ser por identificar no outro uma outra pessoa com características únicas e irrepetíveis. Neste estágio os atrativos físico e psíquico, apesar de continuarem importantes, não são mais condição para o relacionamento, pois ele continua mesmo apesar do físico ou do psíquico já não mais agradarem. Ama-se pelo que o outro é, e não pelas qualidades externas que ele tem. O parceiro não é como um objeto.

Segundo Frankl, a consequência de um relacionamento com maturidade a nível de amor é a felicidade. O gozo e a alegria que se encontram neste tipo de relacionamento são autênticos e plenos, e é impossível de serem repetidos em um encontro egoísta que busca o prazer como um fim em si. Só o relacionamento embebido no amor pode ser realmente compensador e satisfatório. Logo, a qualidade da vida sexual de um indivíduo promíscuo é pobre. Não é de se admirar que ele procure compensar a perda da qualidade pela quantidade.

O vazio resultante de uma vida sem sentido é fonte de adoecimento do ser humano. Observa-se uma tendência de viver a vida sexual não integrada na vida pessoal. Tal despersonalização é um sintoma da frustração da busca de sentido e quanto mais frustrada a busca de sentido mais o indivíduo irá devotar-se pela busca de felicidade. Trata-se de uma autofalência. Quanto mais se fizer da felicidade sexual um objetivo, tanto mais ela será inalcançável.

Estas considerações justificam os paradoxos da revolução sexual e as consequências experimentadas pela população, que ousou colocar nas mãos de minorias sociais e do Estado, o poder de dizer o que é certo ou errado. Com o advento da pílula anticoncepcional esperava-se que, com o uso desses contraceptivos, haveria diminuição na ocorrência de abortos e de gravidezes extraconjugais. Esse era um dos principais argumentos de Margaret Sanger com a perspectiva de que tornaria o aborto obsoleto. Fato é que, ao contrário das hipóteses feitas, as taxas de contracepção, aborto e nascimentos fora do casamento explodiram em simultâneo (EBERSTADT, 2018). Margaret Sanger tornou-se ainda referência internacional e hoje é considerada patrona da Planned Parenthood, https://www.plannedparenthood.org/, a maior instituição internacional promotora de abortos no mundo.

Com a revolução sexual, esperava-se “libertar” as mulheres, mas o que se conseguiu foi tornar mais difícil para elas conseguir o que a maioria diz querer, que é casar-se e formar família. Uma prova disso é a popularização de técnicas como congelamento dos óvulos e barriga de aluguel, que possibilitam às mulheres aumentar o horizonte de encontrar um parceiro e formar uma família (EBERSTADT, 2018).

Temos, então, como legado da Revolução Sexual, a desestruturação do modo de família tradicional com aumento de mães solteiras e filhos criados sem a figura do pai. As mulheres ficaram em uma condição pior, sem o apoio do homem na criação dos filhos, mais longe de alcançar o sonho desejado de constituir família, expostas mais precocemente a vulnerabilidades como pobreza, violência, vícios, doenças e imoralidades. Os homens, apesar de também ficarem mais expostos a tais condições, ficaram em uma condição mais confortável, com concentração de renda e sem que seja esperado um comprometimento com a mulher ou com o filho gerado. Os jovens e as crianças consequentemente são os que mais sofrem (EBERSTADT, 2019).

“Põe amor em tudo o que fazes e as coisas terão sentido. Retira delas O Amor, e elas tornar-se-ão vazias.” Santo Agostinho

Referências:

EBERSTADT, M. Adão e Eva depois da pílula: os paradoxos da Revolução Sexual. Quadrante, 2019.

EBERSTADT, M. Five Paradoxes of the Sexual Revolution. The Catholic Thing,10/02/2018. Disponível em

https://www.thecatholicthing.org/2018/02/10/five-paradoxes-of-the-sexual-revolution-part-i/, acesso em 06/05/2021.

FRANKL, V. E. A vontade de sentido: fundamentos e aplicações da logoterapia. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2014.

FRANKL, V. E. Psicoterapia e sentido da vida: fundamentos da logoterapia e análise existencial. 6. ed. São Paulo: Quadrante, 2016.


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