Uma vez encerrada em seu casulo, a lagarta parece murchar. Encolhe-se, como se estivesse morrendo. Passa por um processo profundo e misterioso: uma destruição total. É como se toda a sua estrutura antiga precisasse ser desfeita para que algo novo e belo pudesse nascer. A metamorfose não é fácil, assim como a conversão. É uma verdadeira entrega, é a morte da larva. Assim como um convertido, a lagarta precisa entrar em solidão, ter conhecimento do seu nada, para só assim ter a luz da transformação e poder voar, sabendo de onde vem e para onde vai.
“Ela deixa [a casula] e voa. O resíduo dela fica no chão e ela sobe.” – Dr. Plinio Corrêa de Oliveira
“A borboleta, mesmo fraca, luta com todo o seu corpo, empurrando seus olhos contra as paredes do casulo, sua capa córnea transparente, dura e dividida em facetas.” E, de forma misteriosa, ela faz uso de seus olhos para sua libertação, pressionando, arranhando, batendo. Tudo nela trabalha para alcançar a luz. Ela não estudou, não planejou, mas segue um instinto inscrito em sua natureza pelo próprio Deus, como os dez mandamentos impressos em nossa alma.
O casulo está rígido, endurecido. A borboleta lá dentro é frágil, recém-formada, ainda sem força plena. Como a luta de um recém convertido contra o mundo e contra sua carne. Parece impossível sair daquela prisão. Depois de tanto esforço, de tanta dor, ela corre o risco de sufocar a poucos instantes de sua liberdade. Mas ela consegue — sim, ela sai — porque todo ser vivo recebe de Deus os recursos necessários para enfrentar os momentos mais difíceis da vida.
E assim como Deus deu à borboleta essa força de transformação fazendo uso de seus olhos, quem dirá o que concedeu a nós, seus amados filhos? Não apenas os olhos físicos, mas os olhos da alma: olhos que nos permitem enxergar o que está errado em nossa vida, perceber o que precisa ser transformado e vislumbrar a beleza da graça que nos espera. Toda verdadeira conversão começa por um ver permitido pela graça: ver-se a si mesmo, ver a própria miséria, ver a verdade da graça.
“A pessoa aceita a fé como quem aceita o ar nos pulmões, sem pedir provas, sem discutir nada.” – Dr Plínio Corrêa de Oliveira.
É por isso que, em Sua infinita pedagogia, Deus se utiliza, tantas vezes, dos sermões de um retiro, da Palavra proclamada, de uma homilia silenciosa ou de uma inspiração sutil para abrir nossos olhos interiores. São momentos em que algo em nós se rompe, e compreendemos que já não podemos permanecer como estamos. A alma é chamada a se mover, a sair do casulo da velha existência.
Mas sair do casulo exige esforço. É preciso coragem para suportar a dor da destruição do “eu” antigo, das paixões desordenadas e das falsas alegrias que nos mantêm presos ao chão. Não é uma mudança superficial — é uma morte para si mesmo, não podemos ter mais nada de larva, nada poderá ser aproveitado. Só então pode vir o voo.
Não fomos feitos para rastejar como vermes, mas para voarmos como borboletas apreciando as criações de Deus:
“ Uma borboleta esvoaçando em torno de uma flor”… Dr Plinio Corrêa de Olivera.
Por isto, peçamos sempre, que a Augusta Mãe de Deus, medianeira das graças e refúgio dos pecadores, nos assista com seu olhar compassivo passarmos da antiga para a nova vida. Que Ela, que intercedeu com ternura e poder pelas conversões mais sublimes da história da Igreja — como a de Santo Agostinho, outrora escravo das paixões; a de Santa Maria Egípcia, que trocou a vida dissoluta pela mais austera penitência; a de Santa Maria Madalena, transformada em ardente amante do Senhor; e a de São Pedro, que entre lágrimas retomou a fidelidade após a negação; São Paulo, de perseguidor a apóstolo e tantos outros —, se digne também olhar por nós. Que nos conceda a graça de nos permitir enxergar, o que em nós carece de mudança, e nos inspire a coragem necessária para abandonarmos tudo quanto não agrada ao Sagrado Coração de seu Filho. E assim, despojados do homem velho, auxiliados por sua intercessão materna, possamos alçar voo rumo às alturas da santidade, deixando no chão a rastejante existência das paixões desordenadas.
Bibliografias:
O livro de ciências do Tio Paulo – Jean Henri Fabre
O Batismo, “lumen” da vida – Dr Plinio Correa de Oliveira
Tratado prático dos Vícios e das virtudes – Beata Conchita


Respostas de 2
“Toda verdadeira conversão começa por um ver permitido pela graça: ver-se a si mesmo, ver a própria miséria, ver a verdade da graça.”
Que artigo profundo e belo.
Deus nos fez para o alto, para o belo e não para o cárcere do pecado.
Que Ele me conceda a graça da verdadeira contrição e a força para romper com o que me prende nesse mundo.
Que artigo profundo e inspirador! Fiquei realmente tocada pela forma como ele compara a metamorfose da lagarta com o processo de conversão. É impossível não se reconhecer, em algum momento da vida, dentro desse “casulo” enfrentando dores, limitações e lutas interiores, mas também sentindo o chamado de Deus para algo maior.