Paz sobre a terra, justiça e caridade!

Nosso Senhor Jesus Cristo testemunhou com a vida o seu amor e submissão ao Pai, declarou a adesão plena da sua missão ao dizer “eis que eu venho, ó Deus, para fazer a tua vontade” (Hb 10, 7) e incansavelmente se nutria dos Seus desígnios: “meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra” (João 4, 34). O Mestre nos ensinou a oração perfeita, aquela que contém em si tudo quanto precisamos desejar, a oração do Pai Nosso e com frequência fazemos como Ele, o mesmo pedido: “seja feita a Vossa Vontade assim na terra como Céu”. Ao imitá-Lo, será que realmente temos consciência do que pedimos?

A expressão vontade de Deus significa a aceitação e a entrega da vontade pessoal à vontade Dele, aceitação que revela um ato de humildade, confiança e disposição em acolher todas as circunstâncias da vida, sejam elas confortadoras ou aflitivas, como parte do plano de Deus. Para viver essa entrega total, é preciso exercitar o desapego, buscar alinhar os desejos pessoais aos desejos divinos e crescer no amor em busca da perfeição da alma pela conformidade com o seu querer, ou seja, “darmos totalmente a nossa vontade ao Senhor para que, em tudo o que nos toca, Ele faça conforme a Sua vontade” (Santa Teresa d’Ávila). Aquele que mais sobressair nesta prática receberá de Deus dons e se adiantará na vida interior.

A palavra conformidade tem sua etimologia no latim “conformitas“, que significa qualidade do que é conforme, semelhança ou identidade e deriva da junção do prefixo “con” (junto) e da raiz “forma” (aparência), sugerindo a ideia de algo que se ajusta a uma forma estabelecida, com aceitação, obediência, resignação e acolhimento. Neste sentido, que grande graça seria dizermos como o beato Henrique Suso: “Preferiria ser o verme mais miserável da terra, por vontade de Deus, do que um serafim por minha vontade própria.” Quanto desapego de si, quanta determinação e amor, frutos de quem decidiu viver de entrega!

Podemos dizer que, aquele que jejua, dá esmola e se mortifica por amor de Deus, dá uma parte de si mesmo; aquele, porém, que submete a Deus a sua vontade dá-lhe tudo quanto tem. É isto o que Deus nos pede, quer dizer, o coração, a vontade (Pr 23,26). Este é o norte e a mira de nossa oração: impetrar a graça de fazer o que Deus exige de nós e para a execução destas resoluções, incumbe pedir a Graça pela ação do Espírito Santo, da intercessão da Virgem Maria e de nossos santos protetores a fim de que nos alcancem luzes e forças para conformar a nossa vontade com a de Deus em todas as coisas e sobretudo naquelas que repugnam ao nosso amor próprio.

Em nossa vida, todos os dias, há inúmeras oportunidades para colocar em prática esse heroico e amoroso pedido “fiat voluntas tua” e nas pequenas coisas entregar a nossa vontade ao Senhor, dizendo como a Beata Chiara Luce: “Jesus, se Tu queres, eu também quero.” Confiemos na ação da Graça e cresçamos em conformidade! 

Cumpra-se em mim, Senhor, a Vossa vontade de todos os modos e maneiras que Vós, Senhor meu, quiserdes. Se quereis com trabalhos, dai-me esforço e venham; se com perseguições e enfermidades e desonras e necessidade, aqui estou, não voltarei o rosto, Pai meu, nem é razão para voltar as costas. Seria indigno de mim recuar. Pois Vosso filho Vos deu esta minha vontade dando-Vos a vontade de todos, não é razoável que falhe por minha parte; mas sim me façais Vós mercê de me dar o Vosso Reino para que eu possa fazê-lo, pois Ele mo pediu, e disponde em mim como de coisa Vossa, conforme a Vossa vontade.” (Caminho, cap 32)


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